Pra que que eu sou assim tão apressada?
Sabia que seria bem prejudicial à minha concetração Mulher-Maravilha e Márcia Denser nesta altura dos fatos, mas não pude resistir. Gosto demais de bilhetinhos e de me comunicar indiretamente com as pessoas pra deixar passar a opotunidade: Terça passada, Dedezão aqui em casa, olhando através do vidro da estante a Diana dele e dizendo que ela era dele, eu concordando e não dizendo mais nada; então Dedezão vai embora sem sua Diana e eu não digo mais nada, até. Sábado, Fernandão indo pra Silvânia, eu ficando aqui e saindo cedão, deixando recados dizendo “leva essa Diana pra lá e me trás outra coisa”. Na verdade, disse pro André me trazer o MEU livro. Me referia a outro livro da mesma Márcia. Ele que me falou lá no Park Shopping que ele seria meu. Eu lembro. Sentado lá na mesa, ao lado de um tapume de reforma. Ele falou: eu tenho outro livro dela, de uma coleção nova, eu ia fazer uma revisão, não vou mais, ainda nem li, nem risquei. Eu falei então eu quero. Era aquele que era meu livro. Segunda o Fernandão com um livrinho dourado, com nome de Anrdé por dentro, sem nenhum nome de Márcia por fora. O nome que vinha por fora era esse aí escrito grande em cima (Toda Terça, não freio) e o nome perto dele, de quem fez alguma coisa toda terça não era Márcia, era Carola. Ainda era segunda feira quando eu abri o livro só pra saber se ele já tinha sido lido. Nenhum vinco na lombada, nenhum desnível de páginas mais abertas, nenhum sublinhado como ele respira, muito suspeito, muito suspeito. Ainda segunda, ainda a pretesto de reconhecimento, ainda eu com o livro aberto na frente, lendo e pensando de onde é que eu conhecia Carola Saavedra se não um nome escrito num dos blogs do André.
Ora, claro que eu a conhecia. Ou se não, ela me conhecia. E muito bem. Certamente que eu contei pra ela meu ano de Mateus. Com certeza eu falei tudinho pra ela. Tudinho que eu ficava pensando, tudinho do jeito que eu dava uma fingidinha, tudinho do que eu achava dele só porque ele sentava do outro lado da mesa. Claro que eu contei. É óbvio. Muito mais fácil eu ter contado pra ela que ela ter roubado meus pensamentos assim, de graça.
É sério. Eu estava lá, traduzidinha. Duas páginas de escrito e eu estava lá, sentada na cadeira azul, de pijama, tentando crescer pra fora da sala. Em DUAS PÁGINAS.
Segunda feira ainda eu pedi pro Fernandão me dar um marca página (escolhi o do Dorian Gray, assustador e bem cult) e pra ele esconder o livro de mim. Ele escondeu num lugar em que eu acharia, mas na terça ele já desescondeu a meu pedido. E mesmo quarta eu já o desescondi de novo.
E esse esconde me trouxe dois pensamentos, um mais insistente, outro mais consistente: desde antes eu abrigo uma história gigantesca e peladona na minha cabeça, e desde sempre a alimento pra ver se ela ganha um corpo gigantesco e vestido de umas mentirinhas (ok, confesso, eu pensei em escrever um romance. é pecado? ok, sei que do jeito que ele está na cabeça, grandão, amorfo e com corrimento vaginal é pecado, sim. tá, ainda mais se tudo e todo mundo existe de verdade. desse jeito não é romance, é diário, podia ficar escrevendo aqui no blog, mesmo, mas). Mas o outro pensamento: eu sempre quis na vida escrever alguma coisa em que outra pessoa se reconhecesse. Mesmo escrevendo tudo pra dentro em código de baço, meu sonho era que alguém lesse o que eu escrevi e pensasse eu podia ter escrito isso.
Não é assim que a banda toca. Se eu me chamasse Laura, seria Otávio quem diria isso pra mim.