Ia dizer qua a casa da minha mãe não é propícia para escrever, mas não vem ao caso, porque já disse isso e faz mais de semana que não estou na casa da mãe.

Faz mais de uma semana que descobri que não desisti porra nenhuma de fazer minha vida aqui na Corte e faz quase uma semana que tenho esperanças vivas e palpitantes de fazer isso dar certo. Tudo depende da redação. É isso que estão falando no fórum do correio web. E eu recorrendo ao fórum do correio web. Estou perdida. Sério.

E durante a tarde, passo calor no Parque da Cidade vendo passar pessoas umas dentro das outras. Umas cinco horas de calro e sapato apertado por uma onça; dez pilas por hora. Já fiz coisa muito pior por dez pilas por hora.

E eu flerto muito. À tarde, rapazotes sedutores passam por mim sentados em seus carrinhos, eu sorrio pra eles e quase sempre recebo uma resposta encantadora.

Amanhã, um rapazote encantador possivelmente levará um monte de porrada na cabeça. Não sei se é ou não terrível eu não poder estar lá pra ver isso.

Ontem, preferi ter um cachorro, que ao contrário de um filho, nunca chamaria uma moça de gostosa na rua às quatro da tarde, quando ela estivesse pensando em qualquer coisa menos sexo.

Não, nada aconteceu comigo ontem às quatro da tarde, mas certamente alguma mulher foi violentada com um chamadão no meio da rua ontem às quatro da tarde.

Papai do Céu, por favor me ajude a não ter um filho taradinho.

Amém.

Yes! Oh, yes! Querem a minha colaboração! Yes, yes!

Das duas historinhas minúsculas que pregaram na minha cabeça dentro do ônibus, uma foi parar aí abaixo, outra deu de cria as outras quatro e continua disforme (é que eu não imaginei as palavras: vi a coisa, que passou em segundos, descritível em poucas palavras, mas ela continuou acontecendo na minha cabeça depois que acabou).

Já o romance, ninguém se preocupe: a animação cerrou com o fim da Terça.

Acho que a casa da minha mãe não é propícia à escrita. A imaginação borbulhando de palvras se juntando loucas e desenfreadas, mas indomáveis demais pra serem escritas.

 

E é mentira que o ânimo do romance morreu. Arrefeceu, só. Talvez eu me canse dele e o abandone, talvez ele se canse de mim e eu o escreva em três horas e perca todo o trabalho numa queda de energia (Álvaro de Campos à máquina de escrever. Quem diria? Eu que já fui Alberto Caeiro!).

Chega! Pensou em gritar chega quando escutou aquele nome. Pensava que nojento. Até tinha razão pra discutir e gritar, mas falar aquilo, não. Já chegava. Já chega! Pensou em dizer.

Gente! O que que é aquilo? Uma exclamação no escuro. Nada. Ninguém viu nada.

Subiu mais um pouco pra ver. Não tenho coragem, pensou enquanto fechava os olhos.

Era vermelho e escuro, viscoso. Não teve coragem de tocar pra saber se era viscoso mesmo. Ficou satisfeita só de olhar. E o cheiro era terrível: muito viscoso!

Tratavam como uma grande novidade; mas ela já sabia desde antes: amarelo é a cor mais bonita.

Pra que que eu sou assim tão apressada?

Sabia que seria bem prejudicial à minha concetração Mulher-Maravilha e Márcia Denser nesta altura dos fatos, mas não pude resistir. Gosto demais de bilhetinhos e de me comunicar indiretamente com as pessoas pra deixar passar a opotunidade: Terça passada, Dedezão aqui em casa, olhando através do vidro da estante a Diana dele e dizendo que ela era dele, eu concordando e não dizendo mais nada; então Dedezão vai embora sem sua Diana e eu não digo mais nada, até. Sábado, Fernandão indo pra Silvânia, eu ficando aqui e saindo cedão, deixando recados dizendo “leva essa Diana pra lá e me trás outra coisa”. Na verdade, disse pro André me trazer o MEU livro. Me referia a outro livro da mesma Márcia. Ele que me falou lá no Park Shopping que ele seria meu. Eu lembro. Sentado lá na mesa, ao lado de um tapume de reforma. Ele falou: eu tenho outro livro dela, de uma coleção nova, eu ia fazer uma revisão, não vou mais, ainda nem li, nem risquei. Eu falei então eu quero. Era aquele que era meu livro. Segunda o Fernandão com um livrinho dourado, com nome de Anrdé por dentro, sem nenhum nome de Márcia por fora. O nome que vinha por fora era esse aí escrito grande em cima (Toda Terça, não freio) e o nome perto dele, de quem fez alguma coisa toda terça não era Márcia, era Carola. Ainda era segunda feira quando eu abri o livro só pra saber se ele já tinha sido lido. Nenhum vinco na lombada, nenhum desnível de páginas mais abertas, nenhum sublinhado como ele respira, muito suspeito, muito suspeito. Ainda segunda, ainda a pretesto de reconhecimento, ainda eu com o livro aberto na frente, lendo e pensando de onde é que eu conhecia Carola Saavedra se não um nome escrito num dos blogs do André.

Ora, claro que eu a conhecia. Ou se não, ela me conhecia. E muito bem. Certamente que eu contei pra ela meu ano de Mateus. Com certeza eu falei tudinho pra ela. Tudinho que eu ficava pensando, tudinho do jeito que eu dava uma fingidinha, tudinho do que eu achava dele só porque ele sentava do outro lado da mesa. Claro que eu contei. É óbvio. Muito mais fácil eu ter contado pra ela que ela ter roubado meus pensamentos assim, de graça.

É sério. Eu estava lá, traduzidinha. Duas páginas de escrito e eu estava lá, sentada na cadeira azul, de pijama, tentando crescer pra fora da sala. Em DUAS PÁGINAS.

Segunda feira ainda eu pedi pro Fernandão me dar um marca página (escolhi o do Dorian Gray, assustador e bem cult) e pra ele esconder o livro de mim. Ele escondeu num lugar em que eu acharia, mas na terça ele já desescondeu a meu pedido. E mesmo quarta eu já o desescondi de novo.

E esse esconde me trouxe dois pensamentos, um mais insistente, outro mais consistente: desde antes eu abrigo uma história gigantesca e peladona na minha cabeça, e desde sempre a alimento pra ver se ela ganha um corpo gigantesco e vestido de umas mentirinhas (ok, confesso, eu pensei em escrever um romance. é pecado? ok, sei que do jeito que ele está na cabeça, grandão, amorfo e com corrimento vaginal é pecado, sim. tá, ainda mais se tudo e todo mundo existe de verdade. desse jeito não é romance, é diário, podia ficar escrevendo aqui no blog, mesmo, mas). Mas o outro pensamento: eu sempre quis na vida escrever alguma coisa em que outra pessoa se reconhecesse. Mesmo escrevendo tudo pra dentro em código de baço, meu sonho era que alguém lesse o que eu escrevi e pensasse eu podia ter escrito isso.

Não é assim que a banda toca. Se eu me chamasse Laura, seria Otávio quem diria isso pra mim.

Antes de ficar por hora e quase duas esperando na porta de casa sem chave, abriguei na cabeça umas historinhas muito pequenininhas.

Seguindo a onda de mamute do André, vou deixá-las tomando um corpinho bem pequeno — cada vez menor — e tentar vê-las histórias que se lê com a mesma velocidade com que elas passam na cabeça.

Amém.

Mais um beijo e boa noite bem perto. Tão perto assim que ficava separado só pelo sono.