Primeiro foi outra coisa, mas eu nem reparei. Reparei primeiro que ela só olhava as horas. Falou que deixou queimar a carne e olhou as horas, perguntei se queria ajuda, continuou olhando as horas. Passou muito tempo olhando pro relógio. Quando era meio dia e quinze, no relógio dando onze e quinze, porque ela não gosta do horário de verão, o Marcelo perguntou as horas e ela falou baixinho: meio dia e quinze. Ainda era meio dia e quinze e ela tirava a havaiana vermelha do pé esquerdo e tornava a colocar. Ainda meio dia e quinze, ou meio dia e dezesseis, ela rodava pela cozinha, tirava a havaiana e fazia uma cara de incômodo. Meio dia e dezessete, eu e o Marcelo à mesa, ela dizendo que já estava passando da hora de ir embora (aqui eu já estava aberta. Reconheci a cara de incômodo e o movimento incômodo das mãos, mas reconheci errado. fui direto em Quirinópolis, num carnaval incômodo e desconhecido, cheio demais, triste demais. incômodo. passei pela casa de uma tia velha, por um filme macabro cheio de malucos matadores. o Marcelo também foi na casa de tia velha. ele também já tinha visto). Ir pra onde, mãe? Ela não disse nada, e eu disse então vamos almoçar. É mesmo, ela falou e encheu um prato de pequi, quase sem arroz, sem carne nem feijão. Era meio dia e dezoito. Anter de meio dia e dezessete, ela já tinha comido um docinho quadrado, já havia sido pronunciado o nome do mal. Ao meio dia e dezoito, ela enfiando um caroço de pequi inteiro na boca e eu dizendo vai almoçar e come só esse tantinho de arroz. Não deve ter entendido, porque levantou e foi tomar banho. Pegou a toalha vermelha, disse que estava atrasada, eu que iria ligar pra colega dela, dizer que chegaria mais tarde. Ela não entendeu, disse que ia tomar banho, deixou a toalha vermelha na cadeira e foi pro banheiro com o vestido desamarrado (entre meio dia e quinze e meio dia e dezoito, reordenou várias vezes o laço e a saia do vestido). Antes eu já tinha encostado nela. Suor pegajoso no ombro. Encostei a cabeça na dela e disse que é ruim, né, mãe, então vamos cuidar pra sarar. Perguntei várias vezes se queria primeiro tomar banho ou descansar, ela demorou pra entender, mas logo que o primeiro quadrado de doce subiu, ela começou a voltar. Precisa ligar pra ninguém não. eu já tinha ligado. Liga lá pra ela, diz que eu vou. Saiu do banheiro com a toalha vermelha enrolada no suor frio e comeu arroz com pequi. Vou só molhar o corpo. Entrou de novo no banheiro, saiu amarela, mas seca. Tinha voltado. Não preciso ficar aqui não, já estou boa, tenho que ir trabalhar. Já tinha voltado.
Antes dela voltar, o comentário sobre a tia velha e sua casa, interrompendo as lágrimas fúnebres que brotariam dos nossos quatro olhos que ainda viam as mãos incômodas = família.

1 comment
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20 Novembro, 2008 às 2:21 pm
Dheyne de Souza
Gostei do texto.
bjm.